
VOCÊ NÃO TEM ONDE CAIR MORTA, VAI EMBORA… FALOU O MARIDO, MAS ELE NÃO SABIA QUE ELA ERA A DONA
— Você não tem onde cair morta! Pega suas coisas e vai embora!
Marlene segurou a sacola e encarou Deodato.
— Tem certeza de que é isso que você quer?
— Tenho! Essa casa, essa olaria, tudo aqui existe porque eu trabalhei! Você nunca trouxe nada!
Ela apertou duas chaves escondidas no bolso.
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— Então está bem.
Em vez de seguir para a estrada, Marlene virou para a última casa do povoado.
Deodato gritou:
— Vai para onde?
— Para minha casa.
Ele riu.
— Sua casa?
Marlene não respondeu.
Aquela residência estava fechada desde a morte da mãe. Marlene colocou uma das chaves na fechadura e entrou.
Mas a verdadeira surpresa estava atrás daquela casa.
Ali começava o único barreiro da região com argila boa para fabricar tijolos.
O mesmo lugar de onde Deodato retirava barro havia dezenove anos.
E tudo pertencia legalmente a Marlene.
Dias antes, ela havia alertado:
— Esse barro novo tem areia demais. Os tijolos vão rachar.
Deodato a humilhara diante dos trabalhadores.
— Agora você entende de olaria também?
Depois mandou usar o barro mesmo assim.
Duas fornadas racharam.
Desesperado com uma encomenda de quarenta mil tijolos, Deodato ordenou:
— Voltem para o barreiro antigo!
Igino, o forneiro, hesitou.
— Patrão… tem um problema.
— Qual?
— Esse barreiro não é seu.
Deodato riu.
— Ficou maluco?
— É da dona Marlene.
Naquela noite, ele apareceu diante da casa dela.
— É verdade?
— Desde que minha mãe morreu.
— Você escondeu isso de mim!
Marlene chegou perto da porta.
— Eu contei no primeiro ano do nosso casamento.
Ele tentou lembrar.
— Não lembro.
— Eu lembro. Você riu e disse: “Buraco no chão é de quem cava.”
Deodato empalideceu.
— Marlene, tenho seis famílias trabalhando comigo. Se você fechar o barreiro, acabou tudo.
Ela poderia ter feito exatamente isso.
Mas viu o filho de um funcionário ouvindo a conversa.
— Amanhã, traga todos aqui.
Na manhã seguinte, Marlene colocou suas condições.
— O barreiro continua aberto.
Os homens respiraram aliviados.
— Mas o barro será pago. E ninguém cava sem minha autorização.
Deodato bateu na mesa.
— Você quer mandar na minha olaria?
— Não. Na sua olaria, você manda. No meu barro, mando eu.
Ela pegou duas amostras.
Fez com cada uma uma pequena tira e enrolou no dedo.
A primeira rachou.
A segunda permaneceu inteira.
Igino arregalou os olhos.
— Ela estava certa.
Com Marlene escolhendo a argila, a encomenda foi entregue.
Meses depois, Deodato pediu:
— Volta para casa.
Marlene balançou a cabeça.
— Eu passei dezenove anos achando que não tinha nada porque você nunca me ouviu.
Ela mostrou as duas chaves.
— Quando me expulsou, disse que eu não tinha onde cair morta. Mas eu carregava a chave da minha própria casa no bolso.
Deodato abaixou os olhos.
Marlene não tomou a olaria dele.
Não destruiu seu trabalho.
Apenas nunca mais permitiu que ninguém decidisse o valor dela.
E passou a ensinar às meninas do povoado:
— Falem na primeira vez. E, se rirem de vocês, falem de novo.
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Maycon Teles é o criador do Fábulas Reais, um espaço dedicado a contos emocionantes, narrativas ficcionais, histórias inspiradoras e relatos de superação criados para entreter, emocionar e provocar reflexão. Seu trabalho busca transformar situações marcantes da vida em histórias envolventes, humanas e cheias de emoção.
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