
TODOS TINHAM MEDO DO HOMEM NO FIM DA ESTRADA — ATÉ UMA MULHER BATER À SUA PORTA
— Não entra na minha terra. E não volte aqui com esses papéis.
Teresa segurou o mapa com firmeza.
— Se o senhor nem olhar, várias famílias podem perder a plantação.
— Problema delas.
— E se fosse o senhor precisando de ajuda?
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Afonso abriu a porteira apenas para passar.
— Eu aprendi a não precisar de ninguém.
E fechou na cara dela.
Na região, todos evitavam Afonso.
Havia quase dez anos ele vivia sozinho no fim daquela estrada, não recebia visitas e expulsava qualquer pessoa que aparecesse sem autorização.
Teresa precisava justamente dele.
O poço da propriedade de seu pai estava secando, e um antigo canal de irrigação atravessava as terras de Afonso. Se fosse recuperado, poderia levar água para vários pequenos produtores.
Dois dias depois, Teresa voltou.
Sem mapa.
Sem contrato.
Afonso apareceu irritado.
— Veio ouvir outro não?
— Vim perguntar do que o senhor tem tanto medo.
Ele endureceu.
— Vá embora.
— Alguém tentou tomar essa terra de você?
Afonso encarou Teresa.
Dessa vez, não respondeu.
Ela percebeu que havia acertado.
Dias depois, encontrou Sebastião, um vizinho antigo.
— O que fizeram com ele?
Sebastião hesitou.
— Quando o pai adoeceu, Afonso abandonou tudo para cuidar dele. Os irmãos desapareceram.
— E depois?
— Quando o velho morreu, voltaram querendo a terra. Disseram que Afonso tinha manipulado o pai.
Teresa sentiu o peso daquilo.
Agora entendia a porteira fechada.
Voltou uma última vez.
— Eu não quero sua terra.
Afonso soltou uma risada amarga.
— Foi exatamente o que disseram antes.
— Então coloque suas condições.
Ele franziu a testa.
— Como?
— Diga quem entra. Quando entra. O que pode fazer. O senhor não precisa confiar cegamente em ninguém.
Afonso ficou calado.
— Só você, o técnico e dois trabalhadores.
Teresa concordou.
O serviço começou.
Mas dias depois, Joel, um produtor apressado, entrou sem autorização para entregar material.
Afonso explodiu.
— Acabou! Todo mundo para agora!
— Foi um erro! — Teresa respondeu.
— Eu avisei!
— Então puna quem errou. Não condene quem respeitou sua palavra.
Afonso apontou para a estrada.
— Vá embora também.
Teresa entrou no carro.
— Dessa vez eu não volto para convencer você.
Três dias depois, Afonso apareceu na propriedade dela.
Teresa cruzou os braços.
— Mudou de ideia?
— Joel não entra mais. Material fica na porteira. E ninguém muda nada sem falar comigo.
— Certo.
Afonso respirou fundo.
— Podem terminar.
Semanas depois, a água voltou a correr pelo antigo canal.
Os produtores comemoraram.
Mas Afonso apenas ficou olhando.
Teresa aproximou-se.
— Faz tempo que não fica no meio de tanta gente, não é?
Ele respondeu baixo:
— Faz tempo que ninguém entra aqui e vai embora sem levar alguma coisa.
Teresa sorriu.
— Eu levei.
Afonso olhou desconfiado.
— O quê?
— A vontade de voltar.
Dias depois, ela encontrou duas canecas de café esperando na varanda.
Afonso apontou para a cadeira.
— Vai ficar em pé?
Teresa sentou.
E naquele fim de estrada, o homem que acreditava que fechar a porteira era a única forma de não sofrer começou a descobrir que limites protegem… mas muros também podem aprisionar.
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Maycon Teles é o criador do Fábulas Reais, um espaço dedicado a contos emocionantes, narrativas ficcionais, histórias inspiradoras e relatos de superação criados para entreter, emocionar e provocar reflexão. Seu trabalho busca transformar situações marcantes da vida em histórias envolventes, humanas e cheias de emoção.
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