
NÃO POSSO AJUDAR, VAI EMBORA — 7 ANOS DEPOIS, ELA VOLTOU COMO DONA DAQUELA TERRA
— Não posso ajudar. Vai embora.
Dirce apertou a bolsa contra o peito.
— Eu não quero dinheiro. Só um copo d’água e um canto para dormir.
Ulisses apontou novamente para a estrada.
— Aqui não dá.
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— Nem água?
Ele desviou os olhos.
Dirce virou as costas humilhada e começou a descer a ladeira sob o sol.
Meia hora depois, ouviu alguém correndo.
Era um menino.
— Tia! Espera!
Ele entregou uma garrafa de água e um embrulho com farinha e rapadura.
— Quem mandou?
— Ninguém.
Dirce desconfiou.
— Qual seu nome?
— Juca.
O garoto apontou a estrada.
— Dorme perto do juazeiro. Amanhã passa um caminhão para a cidade.
Sete anos se passaram.
Dirce trabalhou numa olaria, aprendeu tudo sobre barro, economizou cada moeda e nunca esqueceu aquela fazenda.
Principalmente porque perto daquele juazeiro havia um barranco de barro vermelho perfeito para fabricar telhas.
Quando descobriu que parte da fazenda seria vendida, gastou todas as economias e comprou justamente aquele pedaço.
No dia em que voltou, encontrou Ulisses no terreiro.
— Bom dia.
Ele demorou alguns segundos para reconhecê-la.
Dirce abriu a escritura.
— Agora essa terra é minha.
O rosto dele perdeu a cor.
— A gente sai hoje.
— Lembra de mim?
Ulisses abaixou a cabeça.
— Lembro.
— Sete anos atrás, eu pedi água aqui.
Antes que ele respondesse, um rapaz apareceu na porta.
Dirce congelou.
— Juca?
O rapaz sorriu.
Ela abriu a bolsa e retirou uma velha garrafa de vidro.
— Ainda tenho.
Juca começou a rir.
— Tio! Ela guardou a garrafa que você mandou eu levar!
Dirce virou lentamente para Ulisses.
— Você mandou?
Juca respondeu antes dele:
— Foi. Ele encheu a água, embrulhou a comida e mandou eu correr.
— Então por que ele me expulsou?
Foi quando a verdade apareceu.
Ulisses escondia três sobrinhos órfãos naquela casa.
O proprietário permitia apenas moradores solteiros.
Se descobrisse as crianças, Ulisses perderia a casa e os três seriam separados.
Naquele mesmo dia, o patrão estava chegando para uma inspeção.
Ulisses tinha medo de deixar Dirce entrar e descobrir tudo.
Ela ficou olhando para ele.
— Eu passei sete anos achando que você era cruel.
— Eu sei.
— Bastava dizer que não podia explicar.
— Eu tive medo.
Dirce respirou fundo.
Então abriu novamente a escritura.
— Escuta bem. Ninguém vai embora.
Ulisses ergueu os olhos.
— Como?
— Vou construir uma olaria naquele barranco. Preciso de gente trabalhando comigo.
Meses depois, a família inteira estava produzindo telhas.
Vieram dificuldades, seca e dívidas.
Quando faltou água, Ulisses chegou a oferecer sair com as crianças para salvar o negócio.
Dirce recusou.
— Sete anos atrás, eu precisava de água. Seu sobrinho me deu. Agora eu não vou tirar água de vocês para salvar dinheiro.
A olaria sobreviveu.
Cresceu.
E anos depois, Dirce colocou uma regra na casa.
Uma garrafa cheia de água deveria permanecer sempre na janela.
Porque se algum desconhecido aparecesse naquela porteira cansado, perdido e com sede…
Nunca mais sairia dali acreditando que ninguém se importava.
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Maycon Teles é o criador do Fábulas Reais, um espaço dedicado a contos emocionantes, narrativas ficcionais, histórias inspiradoras e relatos de superação criados para entreter, emocionar e provocar reflexão. Seu trabalho busca transformar situações marcantes da vida em histórias envolventes, humanas e cheias de emoção.
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