
“Meu marido enterrou isso aqui” — disse Teresa ao PEÃO ao abrir a caixa escondida na mata…
“Não encosta nisso!” Teresa gritou, ajoelhada no meio da mata, com a mão tremendo sobre a tampa enferrujada. “Meu marido enterrou isso aqui na semana em que morreu.”
O peão recuou um passo, ofegante, ainda segurando a enxada. O cheiro de terra molhada subia forte entre as árvores, e o fim da tarde deixava tudo com um ar pesado. Eles tinham ido até ali atrás de uma égua que fugira da cerca, mas o casco do animal batera num pedaço de metal escondido sob as folhas. Bastou cavar um pouco para a caixa aparecer.
“Dona Teresa… a senhora tá branca”, murmurou o peão. “Melhor a gente voltar.”
Ela nem piscou.
“Eu passei sete anos tentando entender por que o Heitor saiu de casa naquela noite e nunca mais voltou.” A voz dela falhou. “Se ele enterrou isso escondido no meio da mata… aqui tem a resposta.”
O peão, Jonas, olhou em volta como se a floresta pudesse escutar. Trabalhava havia pouco tempo na fazenda, mas já sabia que o nome do falecido marido de Teresa ainda pesava sobre cada cerca, cada curral, cada silêncio daquela casa. Heitor tinha morrido num acidente de caminhonete numa ribanceira. Pelo menos era o que todos diziam.
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“Quer que eu abra?”, Jonas perguntou, mais baixo.
Teresa respirou fundo e assentiu.
A tampa cedeu com dificuldade. Quando abriu de vez, os dois congelaram.
Lá dentro havia maços de dinheiro já úmidos, um revólver embrulhado num pano, um relógio de ouro quebrado e um envelope pardo com o nome de Teresa escrito à mão.
Ela puxou o envelope primeiro.
Os dedos mal obedeciam.
“Lê, dona Teresa”, Jonas sussurrou. “Talvez a senhora não consiga.”
“Eu consigo.”
Ela abriu a carta ali mesmo, e a primeira linha fez sua perna fraquejar.
“Se você está lendo isso, é porque eu não consegui voltar.”
Jonas segurou o braço dela antes que caísse.
Teresa continuou, com a voz cada vez mais fraca:
“Eu escondi essa caixa porque seu irmão Augusto descobriu tudo. Fui eu quem atropelou Nestor na estrada, depois da briga pela partilha das terras. Ele estava me chantageando. Disse que contaria que a escritura do sítio foi falsificada. Augusto me ajudou a esconder o corpo e fez parecer que Nestor fugiu. Agora quer tudo para ele. Se alguma coisa me acontecer, não foi acidente.”
O mato pareceu girar.
Teresa baixou a carta devagar, sem ar.
“Augusto…” ela murmurou, quase sem som. “Meu próprio irmão.”
Jonas pegou o relógio da caixa e virou no verso. Havia uma gravação: Para Nestor, do pai. O rosto dele endureceu.
“Então o homem que sumiu não foi embora. Foi morto.”
Teresa levou a mão à boca, o choro vindo bruto.
“Meu Deus… Heitor era culpado. Mas também estava com medo. Ele tentou me contar e não conseguiu.”
Foi então que um estalo de galho soou atrás deles.
Os dois se viraram.
Augusto saiu do escuro com a espingarda apontada, o rosto deformado de raiva.
“Eu sabia que uma hora alguém ia achar essa maldita caixa.”
Jonas se colocou na frente de Teresa.
“Baixa essa arma, seu covarde.”
Augusto cuspiu no chão.
“Teu patrão morreu porque quis bancar o arrependido. E você, Teresa, sempre foi cega demais pra perceber quem mandava nessa família.”
Teresa enxugou as lágrimas com fúria.
“Não. Hoje eu enxerguei.”
Antes que ele apertasse o gatilho, um barulho de motores invadiu a mata. Jonas tinha enviado a localização para o capataz minutos antes, desconfiado do silêncio estranho da trilha. Em segundos, homens da fazenda e uma viatura cercaram o lugar.
Augusto ainda tentou correr, mas foi derrubado no barro.
Teresa caiu sentada no chão, olhando a caixa aberta diante de si, como se visse ali os restos de uma vida inteira enterrada com mentiras.
Jonas se ajoelhou ao lado dela.
“Acabou, dona Teresa.”
Ela apertou a carta contra o peito e respondeu, chorando:
“Acabou a mentira. Agora começa a justiça.”
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Maycon Teles é o criador do Fábulas Reais, um espaço dedicado a contos emocionantes, narrativas ficcionais, histórias inspiradoras e relatos de superação criados para entreter, emocionar e provocar reflexão. Seu trabalho busca transformar situações marcantes da vida em histórias envolventes, humanas e cheias de emoção.
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