
Peão boia fria comia marmita na estrada, quando a fazendeira rica parou com seu cavalo — e disse…
“Você vai almoçar no curral, Chico? Ou agora virou mendigo de estrada?”
A humilhação veio em tom de deboche, vinda de um caminhoneiro no posto, e arrancou risos de dois homens encostados no balcão. Debaixo da sibipiruna, com a marmita aberta no colo, Chico nem levantou a cabeça. Só apertou o garfo entre os dedos calejados e continuou comendo devagar, como quem já tinha sido ferido demais para reagir a qualquer migalha de crueldade.
Do outro lado da cerca, uma mulher parou o cavalo.
Dalva puxou as rédeas no mesmo instante. A cena bateu nela de um jeito estranho. Aquele homem magro, de chapéu gasto, barba por fazer e ombros curvados não parecia só um peão cansado. Parecia alguém que já tinha sido muito e agora andava pelo mundo tentando esquecer o próprio nome.
Ela desceu da sela, atravessou a estrada de terra e parou diante dele.
“O senhor é o Chico de Aparecida?”, perguntou, com a voz firme, mas os olhos acesos.
Chico ergueu o rosto devagar.
Ninguém dizia aquele nome havia dois anos.
A garganta travou. Os olhos marejaram antes que ele pudesse evitar.
“Sou… ou fui”, respondeu baixo. “Depende do que sobrou.”
Dalva segurou o chapéu contra o peito.
“Meu pai tentou contratar o senhor duas vezes. Rogério Siqueira. Da Bom Retiro.”
Chico ficou imóvel.
“Seu Rogério morreu em janeiro”, ela continuou. “E deixou um cavalo que não aceita mais ninguém. Derruba peão, quebra cerca, não deixa nem botar cabresto. Dizem que ele ficou bravo. Mas eu acho que ele ficou sozinho.”
O vento mexeu as flores amarelas da árvore. Uma caiu dentro da marmita de Chico.
Dalva respirou fundo e disse:
“Vai lá em casa. Come um almoço de verdade. Depois, se quiser, vai embora.”
Chico olhou a estrada, olhou a mochila, olhou o chão. Era só um convite. Mas fazia dois anos que ninguém o chamava para entrar sem cobrar nada em troca.
Na cozinha da fazenda, dona Helena serviu arroz, feijão, bife acebolado e couve refogada. Quando viu Chico sentado na ponta da mesa, magro daquele jeito, apertou o avental nas mãos.
“Pode comer sem pressa, seu Chico”, ela disse, com doçura. “Aqui ninguém mede a fome dos outros.”
Ele abaixou a cabeça, emocionado.
Depois do almoço, Dalva o levou até o curral.
Capeloa, o tordilho de seu pai, andava de um lado para o outro, orelhas baixas, respiração pesada, olho aceso de dor. Chico encostou na cerca e ficou em silêncio. Um silêncio longo. Daqueles que escutam mais do que falam.
“E então?”, Dalva perguntou, aflita.
Chico nem tirou os olhos do cavalo.
“Esse bicho não tá bravo, dona”, disse, rouco. “Tá de luto.”
A frase desmontou Dalva por dentro. Ela levou a mão à boca e chorou sem fazer barulho.
Nos dias seguintes, Chico entrou no curral sem corda, sem vara, sem pressa. Sentava num banquinho de madeira e só ficava ali. Dona Helena aparecia com café. Dalva observava da varanda. Ninguém forçava nada.
Até que, no nono dia, aconteceu.
Capeloa caminhou devagar até ele… e encostou a testa no ombro do velho domador.
Chico fechou os olhos. As lágrimas vieram de uma vez.
“Saudade reconhece saudade”, ele sussurrou.
Meses depois, o cavalo voltou a marchar. Dalva voltou a sorrir. A fazenda voltou a ter vida. E Chico, que tinha sido tratado como inútil na beira da estrada, se tornou o homem mais respeitado da Bom Retiro.
Porque tem gente que o mundo chama de acabado…
Mas Deus olha e ainda chama de recomeço.
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