
Naquela manhã silenciosa, numa estrada estreita perto de Vila Serena, ninguém imaginava que o destino de um homem tão rico e tão cansado fosse mudar por causa de um simples pastel. Breno Lacerda dirigia sem rumo, fugindo de compromissos, fugindo de reuniões, fugindo de uma vida que parecia luxuosa por fora, mas que por dentro sufocava. A chuva da madrugada deixara o ar fresco, e naquele clima ele só queria uma coisa: respirar sem relógio, sem assessor, sem expectativas. Foi então que viu, à direita, uma barraca pequena com um pano amarelo balançando. Um lugar improvável para alguém como ele, justamente por ser tão simples.
Breno diminuiu a velocidade. Algo naquela cena mexeu com ele — talvez a fumaça da chapa, talvez as risadas das pessoas, talvez a sensação de que ali existia um pedaço de vida real. Quando desceu do carro, o cheiro quente de massa frita o envolveu. E foi ali que ele viu Lia pela primeira vez. Ela virava um pastel com cuidado, o cabelo preso num coque torto, algumas mechas soltas iluminadas pelo sol fraco. Lia conversava com uma cliente com tanta leveza que Breno ficou parado, como se tivesse esquecido o motivo de ter parado o carro.
Quando ela finalmente notou sua presença, virou-se e seus olhos encontraram os dele. O sorriso que ela deu não tinha esforço, não tinha pose — era natural, acolhedor o suficiente para desmontar qualquer armadura. “Bom dia”, disse ela. Breno tentou responder, mas a voz saiu baixa demais, denunciando um nervosismo que ele não lembrava de sentir desde a juventude. Pediu um pastel, mas na verdade queria era continuar olhando para ela.
Enquanto esperava, observou o ambiente: mesas tortas, cheiro de café forte, gente simples conversando alto. Nada ali combinava com sua rotina milionária — e ainda assim tudo parecia mais vivo que qualquer lugar em que ele estivera nos últimos anos. Lia entregou o pastel e, quando seus dedos se tocaram por um instante, Breno sentiu um choque leve, real, impossível de ignorar. Ela desviou o olhar, como se também tivesse sentido.
Ele comeu devagar, só para ter tempo de ficar. Lia, de vez em quando, o encarava quando achava que ele não estava olhando. E quanto mais Breno observava seus gestos, mais percebia que não queria ir embora. Criou coragem e se aproximou novamente. Lia sorriu ao vê-lo voltar. Conversaram como se fossem velhos conhecidos, e a sinceridade dela desmontava cada palavra ensaiada dele. Quando Breno disse que parara ali “para respirar da vida”, ela riu, e foi a risada mais bonita que ele já tinha escutado.
Ele contou pouco sobre si. Não mencionou dinheiro, não mencionou carreira. Só disse que estava cansado. Lia falou da barraca, da mãe que a começou, da simplicidade que ela valorizava. E ali, em meio a panelas chiando, Breno percebeu que encontrara algo raro demais para ser deixado na beira da estrada. Ao final, quando ele perguntou se poderia voltar no dia seguinte, Lia respondeu com um sorriso tímido: “Eu quero que volte.”
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E foi assim, devagar, sem pressa, que um milionário encontrou na simplicidade de uma barraca de pastel o amor que a vida inteira tinha lhe negado.
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Maycon Teles é o criador do Fábulas Reais, um espaço dedicado a contos emocionantes, narrativas ficcionais, histórias inspiradoras e relatos de superação criados para entreter, emocionar e provocar reflexão. Seu trabalho busca transformar situações marcantes da vida em histórias envolventes, humanas e cheias de emoção.
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