
A porta da pequena lanchonete às margens da BR-407 quase voou do batente quando uma menina entrou tropeçando, descalça, o vestidinho azul rasgado e o rosto coberto de poeira. Seus olhos assustados pareciam ter visto algo que nenhuma criança deveria ver.
“Por favor… ele tá vindo!”, implorou, a voz falhando.
O lugar estava quase vazio. Apenas dois caminhoneiros cochichavam perto do balcão e, no canto, três motoqueiros com seus coletes gastos. O líder deles, chamado de Corvo, ergueu o olhar devagar, como quem sente o perigo antes de enxergá-lo. Ao seu lado estavam Barril, enorme como uma porta de celeiro, e Neco, o mais jovem, cicatrizado pelas curvas duras da estrada.
A menina — que se apresentou como Júlia — correu direto para eles, como se já soubesse quem poderia ajudá-la. Corvo levantou-se. “Quem tá vindo atrás de você, pequena?”
Júlia engoliu em seco. “O Senhor Marcelo… ele disse que ninguém ia acreditar em mim. Mas vocês vão.”
A porta abriu de novo. Um homem entrou com um sorriso educado demais, camisa polo impecável, voz ensaiada. “Júlia, querida, você fugiu de novo. Desculpem o incômodo. Ela tem… episódios.”
A lanchonete ficou silenciosa. Júlia se encolheu atrás de Neco. “Ele tá mentindo.”
O homem tentou se apresentar como orientador da escola municipal de Veredas Altas, mas algo na forma como seus olhos avaliavam as saídas do lugar fez a temperatura cair.
“Se é orientador”, disse Corvo, “não se importa se a gente liga pra diretora, né?”
O sorriso do homem rachou. “Isso é assunto de família.”
“Eu NÃO sou da família dele”, gritou Júlia. “Meus pais tão em Belém. Ele me seguiu. Ele fez isso com outra menina. Eu vi a mochila dela no carro dele.”
O ar ficou pesado. Barril se levantou devagar, a sombra enorme cobrindo o chão. “Bem específica pra alguém ‘confusa’.”
Quando Dona Irene, dona da lanchonete, conseguiu falar com a diretora, seu rosto empalideceu. “Ela disse que Júlia tá desaparecida desde hoje cedo… e que o contato de emergência era o tal do Marcelo.”
O homem tentou correr. Não deu dois passos antes de Barril travar seu caminho como um portão de ferro. Corvo o imobilizou no chão sem violência, apenas firmeza. Júlia tremia, mas pela primeira vez seus olhos revelavam esperança.
Minutos depois, sirenes se aproximavam. A delegada Marisa ouviu cada palavra da menina e enviou equipes ao depósito citado por ela, o Box 19. Lá encontraram outra criança viva — e evidências de uma rede que Marcelo ajudava a manter havia anos.
Quando os pais de Júlia chegaram, voando de Belém, ela correu para eles e depois apontou para os motoqueiros. “Eles ficaram por mim. Eles acreditaram.”
Corvo apenas sorriu. “Você teve coragem. Nós só fizemos o resto.”
Ao anoitecer, as motos partiram estrada afora. Júlia correu atrás deles e entregou a Corvo um desenho: três motos, uma garotinha e a palavra Heróis escrita com força.
Corvo guardou o desenho no colete, como quem guarda um juramento. A estrada continuaria chamando — e eles continuariam respondendo.
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Maycon Teles é o criador do Fábulas Reais, um espaço dedicado a contos emocionantes, narrativas ficcionais, histórias inspiradoras e relatos de superação criados para entreter, emocionar e provocar reflexão. Seu trabalho busca transformar situações marcantes da vida em histórias envolventes, humanas e cheias de emoção.
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